Objetificação dos corpos negros: onde está o afeto?

Por Eduardo Oliveira (Psicólogo CRP 06/141112) e Vinícius Miranda (Médico – CRM – BA 34597)

Olá, pessoal! Nós, Eduardo Oliveira (@psic_du) e Vinícius Miranda (@viniom) retornamos para mais um post a respeito de corpos negros e os atravessamentos sociais vividos por essa população.

O racismo estrutural solidifica e estrutura a sociedade e permite que a discriminação racial seja propagada das mais diversas formas, sendo uma delas, a hipersexualização dos corpos negros. O conceito tem por objetivo desumanizar o público e propagar a imagem de sexo fácil e gostoso, onde não há desejo das pessoas negras, mas apenas alguém que deve, sem pestanejar, se sujeitar aos fetiches do outro. Vale ressaltar que nem todes negros/as/es ocupam esse espaço de hipersexualização por não carregarem o padrão estético valorizado socialmente. As pessoas negras que não tem essas características físicas valorizadas ocupam outros papéis sociais, também, violentos e racistas: “negro bandido” ou “a negra faxineira”.

A concepção distorcida do corpo do homem negro como objeto sexual não é atual, mas já está descrita no período escravocrata que construiu o Brasil. Aos negros era atribuída características de erotização exacerbada, animais sexuais insaciáveis e ausência de sentimentos. Ou seja, eram apenas sexo, sem sexualidade, sentimentos e afeto. Negro da cor do pecado, mulata tipo exportação, mulata Globeleza, termos esses usados amplamente em nosso cotidiano refletindo o que o antropólogo Dr. Osmundo Pinho afirma sobre o corpo negro: o corpo para o trabalho e corpo sexuado!

Ao realizar essa afirmação em seu texto referindo-se ao corpo negro masculino, mas que pode ser expandido para todos os corpos negros, o Dr. Osmundo deixa explícito o imaginário coletivo sobre o segmentos descrito. Do corpo negro masculino espera-se virilidade, potência sexual, sexo intenso e, por vezes, violento, ideia sustentada pela indústria pornográfica que contribui para objetificação do corpo negro masculino, sem considerar a sexualidade em sua totalidade e os aspectos emocionais nas relações interpessoais. Sem contar no meio LGBTQIA+, que deve sempre ocupar a posição de ativo másculo, executando performances sexuais super-humanas. Dentro dessa lógica racista, que restringe ao sujeito negro ser aquilo que o outro quer, o homem negro gay com performance “afeminada” é destituído de afeto, pois não executa o papel social de virilidade e “macheza”, esperado por essa perspectiva discriminatória.

Do corpo negro feminino, segundo a intelectual Lélia Gonzalez, a mulher negra apresenta uma dupla imagem: a mulata e a doméstica. Na imagem da mulata (o estereótipo da mulher negra do carnaval), está o corpo desejado, sexo fácil e bom. Passado a data festiva, sobra o ódio e violência e ela ocupa, perante a sociedade, o lugar de servidão encarnado na figura da empregada (não lhe cabendo afeto ou humanização). O afeto reivindicado por mulheres negras é direcionado às mulheres brancas, atribuindo o ideal de relacionamento/afetividade, ocasionando algo cada vez mais discutido: a solidão da mulher negra!

É importante discutir as repercussões do racismo estrutural nas relações afetivo/sexuais e do quanto as “opiniões e gostos” escondem, por vezes, práticas racistas. Salientando, que gosto é construção social e histórica a partir do que foi construído na formação da sociedade.

A partir dessa breve contextualização histórica e social, a hipersexualização de corpos negros não devem ser propagadas como elogios, pois são fontes de sofrimento e angústia. As repercussões do racismo estrutural são diversas e sentidas de forma individual por cada pessoa negra. Ser anti-racista está para além de não realizar atos discriminatórios, mas contestar perspectivas desumanizantes ao público negro.

Por fim, a #EquipeMaravilha está aqui para ajudar e você não precisa passar por isso sozinho/a/e. Grande abraço ❤️

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