O sofrimento do homem gay cisgênero

Por Naamã Rubet @naamarubetpsi

Psicanalista/ Psicólogo CRP: 06/ 156946

Apesar de ainda termos um longo caminho a percorrer, não há como negar que no Brasil, nos últimos anos, homens gays cisgêneros se beneficiaram com ganhos na média de aceitação social. Presenciamos transformações marcadas por conquistas legais, como, por exemplo, o direito ao casamento em cartório, direito à adoção de filhos, criminalização da homofobia e a suspensão de restrições para doação de sangue. As telenovelas exibem em horário nobre o amor entre dois homens. O Big Brother Brasil, um dos programas mais vistos da televisão Brasileira, recentemente televisionou o primeiro beijo gay de todas suas edições. Testemunhamos a existência de homens gays cisgêneros deixando as sombras.

Celebramos a importância, proporção e velocidade dessas transformações, porém em alerta. Estudos sobre índice de depressão, solidão e abuso de substâncias entre homens gays permanecem no mesmo lugar que estiveram por anos.

Pesquisas em países com conquistas legais como, por exemplo, a legalização do casamento gay e a adoção de filhos, evidenciam uma grande diferença nas taxas de transtorno de humor, automutilação e suicídio entre homens gays em relação aos héteros. O estudo “Prevenção de suicídio entre homens gays e bissexuais: nova pesquisa e perspetiva” feito no Canadá, evidenciou que lá, homens gays estão de 2 a 10 vezes mais favoráveis em tirar suas vidas em relação a homens héteros. Na Holanda, três vezes mais propensos a sofrer de transtorno de humor. Já na Suécia, a taxa de suicídio entre homens casados com homens é tripla em relação a homens casados com mulheres. Não encontrei pesquisas com essa profundidade aqui no Brasil, mas isso não diminui nosso alerta sobre o sofrimento do homem gay brasileiro.

Conquistas legais e aceitação social são imprescindíveis, mas, por si só, aparentam não ser suficientes para evitar o sofrimento psíquico dessa população. Essas preocupantes estatísticas levam à mesma conclusão: ainda é muito perigoso passar pela vida como um homem que se atrai sexualmente por outros homens. De algum modo, homens gays são preparados para esperar a rejeição. Pertencer a um grupo marginalizado exige muito esforço. Desde a infância são anos e anos de pequenos estressores e o trauma é a natureza prolongada dele — pequenas coisas que levam ao questionamento: Será que é por causa da minha sexualidade? Fenômeno que foi chamado pelos pesquisadores da área de “Estresse de Minorias”

Até recentemente, a maioria dos estudos apontava como causa do sofrimento psíquico dessa população agentes estressores externos à comunidade, a homofobia encarnada na rejeição familiar, rejeição da comunidade religiosa, entre outras. Porém, um estudo realizado por John Pachankis, professor e pesquisador na universidade de Yale, nos EUA, mostrou que homens gays têm sofrido psiquicamente com estresse vindo dos seus pares e esse fenômeno foi chamado de “Estresse Intra-minoritário”.

A primeira rodada de danos acontece antes de sair do armário, a segunda, e talvez a mais severa, vem depois. Após deixar a solidão do armário, o sentimento de isolamento pode permanecer. A fantasia de que depois da auto aceitação da sua sexualidade virá um recomeço mais confortável e segura no “vale dos homossexuais”, ou seja, em uma comunidade de pessoas que vivenciaram a mesma rejeição que você, logo cai por terra. A luta para se encaixar fica cada vez mais intensa.

Fora do armário, a sensação de não pertencimento pode ser ainda maior. Uma vida inteira de inadequação. Em um primeiro momento ao mundo, que é heteronormativo, em seguida, as exigências do “mundo gay”. Isso é produtor de sofrimento. Um estudo publicado em 2015, na Califórnia, apontou que lá a taxa de depressão e ansiedade são maiores em homens que tinham saído recentemente do armário em relação aos que ainda estavam presos nele. Um novo trauma. De repente não é mais sua homossexualidade que faz você ser rejeitado, mas por ser quem é. Por ser afeminado, sua cor, sua idade, seu peso, sua renda. Nesse contexto, as crianças que foram vítimas de bullying ao crescer se tornaram os agressores. Segundo Pachankis, a discriminação dentro do grupo pode causar mais danos do que a rejeição externa.

A pesquisa sobre o “Estress Intra- minoritario” na comunidade gay revelou quatro principais eixos e, em sua maioria, marcados pelo excesso: Excessivo foco no sexo em detrimento de relacionamentos ou amizades; Excessiva preocupação com o status: masculinidade, atratividade e riqueza; Excessiva competitividade com os pares; Exclusão da diversidade na comunidade gay, que inclui diversidade étnico- racial, diversidade de idade e a discriminação dos que vivem com HIV.

Entre as razões da comunidade poder ser um agente estressor, encontra-se como essa rejeição acontece. Com o advento da internet, espaços de encontros gays, como bares e baladas, estão sendo substituídos pelas redes sociais e aplicativos. Para muitos, essa se tornou a principal forma de interação com outros homens gays. Há pesquisas que revelam que até 90% dos homens gays nos aplicativos buscam parceiros com as seguintes características: jovens, altos, brancos e másculos. No entanto, a maioria nem sequer atende uma dessas exigências.

A seleção estética para um sexo casual inicia pelo “manda foto”, mas, quase sempre, elimina nossa diversidade: Não a gordos, afeminados, baixos e tantos outros. Isso sem um mínimo de interação. Esse tipo de conexão apenas fornece uma forma eficiente de se sentir inadequado por ser quem é. Fica ainda pior com a intersecção do racismo, já que quase sempre homens gays pretos nos aplicativos recebem duas formas de feedback: rejeitados ou fetichizados.

De algum modo, o que aconteceu na infância se reproduzna vida adulta. No armário, a autoestima do garoto estará vinculada às exigências do mundo externo: sendo um excelente aluno, excelente no esporte, entre outros. Na vida adulta, esse valor se concentra nas normas da comunidade gay, que é ainda mais exigente: ter uma “boa aparencia”, ser másculo e com uma performance sexual impecável. Por um momento pode até ser alcançado, mas, após uma vida inteira vivida pelo olhar do outro, chega a idade, já exausto, vem a pergunta: Isso é tudo que existe? Aí pode vir a depressão.

Não é por causalidade que estamos preocupados com o “Chamsex”, ou “Sexo químico”, entre homens gays e bissexuais. Apesar de não haver pesquisas com essa correlação, no consultório, é recorrente escutar de pacientes adeptos à prática, que entre outras coisas, ao fazê-lo se sentem mais sensuais, mais atraentes e até menos preocupados com julgamentos. Diferente do “Sexo careta”. A droga aumenta o prazer, mas também diminui a sensibilidade ao desprazer, ao mal-estar. Ela oferece uma forma de atingir a independência do externo e da realidade. Certamente, em alguma medida, isso é um sintoma que nos alerta para o sofrimento da nossa comunidade.

Não há dúvidas que para os outros integrantes da comunidade L(G)BTQIA + há um sofrimento ainda mais devastador, mas são atravessados por interseções específicas, sendo assim, demandam análises específicas, inclusive os homens gays transgêneros. Não dá para afirmar que em algum momento a lacuna da “saúde mental” entre homens gays e héteros deixará de existir, mas uma coisa é certa, os desafios enfrentados possibilitaram que homens gays desenvolvessem resistência e resiliência. Consideramos esse fato na medida que lutamos por leis e ambientes melhores e, sobretudo, deixamos de reproduzir a violência que em um primeiro momento sofremos e aprendemos a ser melhor para os nossos.

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