Saúde trans no Brasil: conquistas e desafios

By Wisney Berig

Hoje no dia 29 de janeiro é comemorado o Dia Internacional da Visibilidade Trans (heeeeee!), e por conta disso a equipe do Doutor Maravilha resolveu falar sobre saúde mental para essa população… aliás, como anda a saúde mental dessa população?

A transexualidade deixou de ser um transtorno mental em 2018, e agora é entendida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma “condição relacionada à saúde sexual”. Segundo a OMS, essa é uma forma de dizer que as pessoas não precisam estarem doentes para precisar de um serviço, como a gravidez, por exemplo, que não é uma doença, mas necessita de uma atenção especial. Dessa mesma forma a transexualidade deve ser percebida: mesmo não sendo uma doença, ainda necessita de atenção especial dos profissionais da saúde.

O Sistema Único de Saúde (SUS) decretou, em 2008, que iria realizar as cirurgias de redesignação sexual, como transgenitalização, retirada das mamas, do útero e dos ovários, além de realizar a terapia hormonal. Mas foi só em 2013, com a portaria de nº 2.803, que tudo se tornou concreto. Além disso, como forma de promoção da saúde e prevenção de doenças, o SUS criou uma organização para acolher melhor essa população e aproximá-la da atenção básica de saúde, já que geralmente essas pessoas procuram o serviço apenas em casos extremos, o que acaba se tornando um risco para suas vidas.

Apesar de existirem todos esses serviços gratuitamente pelo SUS, o processo é longo e a quantidade de hospitais licenciados para realizar o procedimento é pequena. E isso refle mais uma vez na saúde mental das pessoas trans: a falta de políticas públicas para essa população (ou a precariedade das que temos) pode trazer angústia e sofrimento.

Alguns estudos apontam que existem impactos psicológicos por conta do uso de hormônios, e que isso varia dependendo do hormônio que está sendo utilizado. Alguns dos efeitos colaterais estão relacionados ao comportamento, principalmente no início do uso. Exemplos incluem comportamentos agressivos, variações de humor, irritabilidade e humor deprimido.

Hormonização sem controle pode trazer riscos

A discriminação e o preconceito ainda estão presentes no dia a dia dessas pessoas. Principalmente quando os seus nomes sociais são ignorados pelos servidores públicos, quando são impedidas de fazer uso dos hormônios quando estão em situação de privação de liberdade e até mesmo atribuindo o HIV/AIDS a essa população. Cabe discutir essa questão, pois ela entra nos papeis de gêneros atribuídos a nós quando éramos crianças, e hoje em dia ainda há pessoas (alô, Damares) que querem encaixar até as cores no binarismo.

Esse preconceito pode levar ao uso excessivo de intervenções por essa população, tanto cirúrgica quanto através da terapia hormonal, de modo a ficarem mais femininas ou mais masculinos. Se a utilização de hormônios já pode trazer algumas modificações comportamentais, imagine o uso de forma excessiva? Ainda sobre hormônios, no Brasil há locais não que os fornecem ou que não possuem especialistas para fazer essa terapia, cabendo a nós, usuários do SUS, reivindicar nosso direito.

Outro ponto importante que devemos abordar é a utilização de silicone industrial, que pode acarretar problemas gravíssimos na saúde, tudo isso para se conquistar o corpo padrão demandado pelo binarismo social que ainda nos esmaga com tanta força.

O que as pessoas cisgêneras, e principalmente os profissionais da saúde, precisam entender é que a transexualidade não é uma doença. Não devemos caminhar na linha do preconceito e da desinformação como caminhamos por muito tempo no passado. As pessoas trans não sofrem por ser quem elas são, elas sofrem por um processo de construção da sociedade criada através de uma lógica cisgênera, vista como a única correta.

Bandeira trans

AS PESSOAS TRANS NÃO SÃO DOENTES, ESTÃO ADOENCENDO, não por causa de ser como são, mas pela falta de compreensão da sociedade sobre sua identidade. A sociedade é transfóbica e isso mostra a necessidade da visibilidade dessa população e a necessidade da nossa força conjunta enquanto movimento LGBTQI+.

Estar perto de pessoas que nos amam e que nos entendem é um fator importante para enfrentar o mundo dos preconceitos, mas só isso não basta: cabe a nós, militantes, abrir espaço para essas discussões. Seja dentro do próprio movimento quanto fora dele, a fala é algo muito importante para alguém que foi silenciado por anos. Criar grupos de pessoas transexuais e travestis é um avanço, pois mostra pessoas que estão passando por situações semelhantes e que podem trocar conhecimentos sobre a vivência diária.

Juntos podemos lutar pelos nossos irmãos e mudar a sociedade.

Um ótimo Dia Internacional da Visibilidade Trans para tod@s!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.