Seu médico é negro. E agora?


medica negra

E agora??

E agora nada.É exatamente ESTA a questão. Há muito tempo estive pensando em fazer um texto relatando experiências de amigos próximos médicos negros sobre o exercício da profissão e um acontecimento ocorrido recentemente que me foi a gota d´água.

Agora na verdade é você que deveria estar repensando a causa de toda sua desconfiança e indignação. Não deveria haver esta segunda frase: “E agora?”. Trata-se de uma pessoa comum exercendo uma profissão comum. Mas sabemos que historicamente há muitas questões complexas por trás de deste cenário.

Sou médico, gay, branco e durante meu curso de medicina não tive UM professor negro sequer. Na minha sala formou-se apenas UMA aluna negra. E, agora, com quatro anos de formado, deparei-me com apenas DOIS negros no imenso mundo de estágios, hospitais e plantões em que vivo. Há uma disparidade EXPLÍCITA: num país gigante e miscigenado como o nosso, recordista em faculdades de medicina, não encontrar negros exercendo profissões básicas como a medicina gera sim um grande questionamento.

Algumas dessas amigas chegaram a me confessar que várias vezes eram “confundidas” com enfermeiras ou técnicas de enfermagem – profissões imprescindíveis e honradas, obviamente – diga-se de passagem, mas que demonstrava que não faz parte do consciente coletivo negros assumindo a função de “doutores” (licença poética para a expressão polêmica >> pouco me importa ser chamado de doutor, sou o Marcos 😀 ou Doutor Maravilha rs).

A maioria das pessoas se desculpava depois do ocorrido, dizendo que estavam distraídos ou que nunca tinham visto um negro naquela profissão (provavelmente a realidade da grande maioria), mas o problema não está no pedido ou não de desculpas, mas sim no significado da situação. Há pouquíssima representatividade racial neste país.

Não estamos acostumados a ver negros sendo médicos, advogados, engenheiros, empresários.

Não estamos acostumados a ver negros de classe média.

Não estamos acostumados a ver negros bem.

Já avançamos muito, mas falta tão mais.

Uma amiga desde formada passou a ser vestir impecavelmente bem, se maquiar lindamente, se cuidar mais que a média, tudo para passar uma imagem mais austera e refinada e diminuir a quantidade de vezes em que ouvia expressões como "Chama o médico?", "Troca meu soro!", "Você que é a médica mesmo?", inclusive por pessoas do próprio staff. Deve ser muito desgasgante e desanimador.

Meu conselho para elas é: CORRIJA-os. "Sou seu médico (a) sim, estou aqui para te atender." Não se calem. Porque acredito que a grande maioria não faz por mal, faz por ignorância, por não ter crescido num mundo onde igualdade racial e representativade são alicerces do bem-estar social ( e aliás quem conviveu com isto neste país?). 

Nunca aceitem comentários agressivos, abusivos, assédios e humilhações. Há diferença entre incautos e criminosos. Estejam fortes. Há pessoas do bem em todo lugar para te ajudarem. Denunciem atitudes racistas, se preciso.

Seu médico é NEGRO sim.

E vai haver cada dia mais negros dentro dos consultórios, UTI´s, clínicas e enfermarias desse nosso país.

É a ordem do progresso natural da sociedade.

Portanto quando abrir uma porta de consultório e se deparar um um médico ou qualquer profissional da saúde negro, agradeça! Pois foi alguém que lutou muito para estar ali, neste país de oportunidades tão desiguais e ele estar lá significa que vivemos em um mundo um pouco melhor. Competência é algo pessoal, mas desconfiar dela só por questões raciais é algo torpe e medíocre.

Por todas minhas amigas negras médicas, enfermeiras, técnicas de enfermagem, dentistas, meus sinceros elogios! 

Vocês representam tudo que eu mais amo na minha profissão: fazer a diferença apesar das diversidades, quebrar estigmas e fazer o bem, até mesmo para quem não acreditava que o bem viria de alguém tão "inesperado".

Em breve postarei um vídeo de desabafo sobre preconceito racial no meio médico. É só parar para pensar um pouco. A mudança começa com a reflexão, sem violência.

Precisamos de representatividade e inclusão, e racismo é algo NADA condizente com humanidade, generosidade, doação e amor, que são as marcas de todas profissões ligadas à saúde.

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1 Comment

  1. Alessandro Amaral says: Responder

    Parabéns pelo artigo.

    Bastante pertinente.

    Ao mesmo tempo é triste saber que a situação não mudou muito quanto a inserção do negro(a) no mundo da medicina. O Brasil continuará por muito tempo, um país extremamente atrasado.

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