SEXO ENTRE MULHERES: uma realidade linda e saudável. Mas também traz riscos!

  Além de sofrerem preconceito e serem marginalizadas pela nossa sociedade machista e inclusive dentro do próprio meio LGBT, existem poucas políticas e ferramentas de conscientização sobre a vida sexual de lésbicas, mulheres transsexuais e, mais genericamente, sobre as MSM (mulheres que fazem sexo com mulheres). Elas existem. Elas amam. Elas transam. E consequentemente, elas correm riscos. Doutor Maravilha inaugura hoje uma seção dedicada exclusivamente ao público feminino, especialmente voltado para as lésbicas, bissexuais e transsexuais.

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  Mulheres que fazem sexo com mulheres (MSM) compõem um grupo muito diverso em relação à identidade sexual, comportamentos e práticas sexuais e fatores de risco. Estudos recentes mostraram que algumas MSM, particularmente as adolescentes e mulheres jovens, assim como aquelas com parceiros de ambos os sexos, podem estar com risco aumentado para DST´s e HIV baseados nos comportamentos de risco relatados.

 Alguns estudos destacaram a grande diversidade de práticas sexuais e examinaram o uso de estratégias de proteção/redução de risco entre essas populações. O uso de métodos de barreira entre parceiras do sexo feminino como o uso de luvas durante sexo digital-genital, preservativos colocados nos brinquedos sexuais, e barreiras de plástico ou látex (principalmente durante o sexo oral-genital) foram infrequentes em todos os estudos.

  Apesar disso, poucas fontes confiáveis e compreensíveis sobre a vida sexual de MSM estão disponíveis. Poucos dados estão disponíveis também sobre os risco de DST´s conferido pelo sexo entre mulheres, mas o risco de transmissão provavelmente varia de acordo com a DST (doença sexualmente transmissível) específica e o tipo de prática sexual (como por exemplo, sexo oral-genital, sexo anal ou vaginal utilizando as mãos; dedos ou objetos para penetração; sexo oral-anal). Práticas envolvendo contato digital-vaginal ou digital-anal, particularmente com compartilhamento de objetos para penetração (como os dildos), representam um possível meio de transmissão de secreção cervicovaginal infectada e secreções anais. Esta possibilidade é mais diretamente apoiada por relatos de transmissão de tricomoníase (corrimento malcheiroso por uma bactéria chamada Trichomonas vaginallis) e por testes de resistência e comparação entre amostras de vírus HIV transmitidos entre mulheres. A maior parte das mulheres que se autoidentificam como MSM (53%-97%) já mantiveram relações sexuais com homens no passado e podem continuar a mantê-las no presente, sendo que cerca de 5%-28% delas relatam ter tido algum parceiro no último ano.

  O HPV, que pode ser transmitido por contato pele-a-pele, é comum entre as MSM, e a transmissão sexual de HPV provavelmente ocorre entre MSM. O DNA do HPV já foi detectado através de PCR (Reação em Cadeia Polimerase, método que amplifica o DNA de qualquer espéciea, facilitando a detecção) no cérvice, na vagina e na vulva de 13 a 30% das MSM. Entre as MSM que relatam nunca ter tido um parceiro do sexo masculino, 26% tinham anticorpos para o HPV do tipo 16 e 42% para o HPV do tipo 6. Lesões intraepiteliais de alto e baixo grau (precursoras do câncer de colo uterino) foram detectadas nos exames de Papanicolau de mulheres que nunca tiveram relação com homes. As MSM estão em riso de adquirir HPV tanto das parceiras mulheres quanto dos parceiros homens atuais e passado e, por isso, têm risco de desenvolver câncer de colo uterino. Assim o rastreio de rotina para câncer de colo deve ser oferecido para todas as mulheres, independentemente de orientações e das práticas sexuais, assim como o uso da vacina para o HPV, de acordo com os consensos atuais, tema que será abordado em outra postagem do Doutor Maravilha.

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  A transmissão genital de herpes entre as MSM é ineficiente, mas pode ocorrer. Um estudo realizado nos EUA entre mulheres de 18 a 59 anos demonstraram uma soroprevalência  (quantidade de pessoas que têm anticorpos para determinado microorganismo) de HSV-2 (herpes vírus do tipo 2) de 30% entre mulheres que relatavam relacionamentos com parceiros do mesmo sexo no último ano, 36% entre aquelas que relatavam ter tido ao menos um parceiro do mesmo sexo na vida e 24% entre mulheres que nunca tinham tido relações homossexuais na vida. A soroprevalência de HSV-2 entre mulheres que autoidentificam como "homossexual ou lésbica" foi de 8%, resultado semelhante a um estudo clínico anterior entre as MSM. A prática relativamente frequente de sexo orogenital entre MSM podem colocá-las em um risco maior para infecção genital pelo HSV-1 (herpes vírus do tipo 1, que coloniza mais a boca), uma hipótese apoiada pela associação reconhecida entre soropositividade para HSV-1 e o número prévio de parceiras entre as MSM. Concluindo, pode haver transmissão sexual de herpes vírus do tipo 1 e 2 entre as MSM, por isso esta informação deve ser repassada às mulheres como parte do seu aconselhamento sobre saúde sexual.

  Menos se sabe sobre a transmissão de DST´s de causa bacteriana entre parceiras do sexo feminino. A transmissão de sífilis entre elas, provavelmente através de sexo oral, já foi descrita. Embora a taxa de transmissão de C. trachomatis (clamídia) entre mulheres seja desconhecida, a infecção pode ser adquirida através de parceiros masculinos no passado ou atuais. Estudos mais recentes sugerem que a infecção por clamídia entre MSM pode ser mais comum do que se acreditava anteriormente. Causam corrimento, linfogranuloma venéreo, doença inflamatória pélvica e complicações como infertilidade.

  A vaginose bacteriana (VB, um tipo de corrimento, é comum entre as mulheres em geral e ainda mais comum entre as MSM. Comportamentos sexuais que facilitam a transferência de fluido vaginal e bactérias entre parceiras podem estar envolvidas no mecanismo da vaginose. Um estudo que incluiu parceiras mulheres monogâmicas demonstrou que elas compartilhavam microbiotas (bactérias naturais do organismo)  genitais idênticas (!) de cepas de Lactobacillus. Embora a vaginose seja comum entre as MSM, o rastreio de rotina não é recomendado. Aumentar a consciência sobre a sintomatologia e encorajar práticas sexuais saudáveis (como por exemplo evitar o compartilhamento de brinquedos sexuais, lavá-los antes do reuso e métodos de barreira) podem beneficiar a mulheres e suas parceiras.

  Mais comumente, as transmissões de HIV entre MSM foram atribuídas a comportamentos de risco como uso de drogas injetáveis ou sexo heterossexual concomitante. Um estudo de 18 casos de MSM sorodiscordantes (uma HIV+, outra HIV-) acompanhadas por 3-6 meses não encontrou evidência de transmissão, levando os autores a sugerirem que não existe risco de transmissão de HIV entre parceiras mulheres monogâmicas (!!!). Os mesmos autores descreveram casos de 11 MSM soropositivas e descobriram que 10 delas fizeram uso de drogas injetáveis e duas tinham relato de atividade sexual com homens e mulheres. Num estudo do tipo coorte de 511 mulheres que mantinham relações com outras mulheres, 470 (92%) relataram terem tido relações com homens e mulheres e 41 (8%) apenas com mulheres; 13 tinham infecção pelo HIV mas nenhuma era categorizada como MSM exclusiva.

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  Concluindo, as MSM (mulheres que fazem sexo com mulheres) precisam se cuidar sim, porque apesar dos riscos serem menores que no contato com os homens, eles existem de verdade e podem gerar doenças graves como câncer, infertilidade, infecções sistêmicas e deformações. Sexo é algo maravilhoso, todos têm este direito, independentemente de genêro, identidade e orientação sexual. As MSM precisam a cada dia assumir mais seu espaço na sociedade, pois são iguais a todos e podem e devem fazer isso da melhor maneira possível: saudavelmente. Basta se cuidar!

Fonte dos artigos citados: CDC (Center for Disease Control and Prevention) www.cdc.gov

camisinha

 

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1 Comment

  1. Muito bom o seu texto sobre transmissão de DSTs entre Msm, é difícil encontrar informações para esse público pois a maioria dos textos são voltados a mulheres heterossexuais e homens homossexuais.

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